Enquanto o Brasil acompanha a Copa do Mundo, a política goiana joga sua própria partida. Neste sábado (27), dois atos simultâneos em cidades diferentes reúnem pré-candidatos ao governo do estado com suas lideranças nacionais de referência, num movimento importante ainda na pré-campanha, em que há a presença de figuras políticas de peso atuando como cabos eleitorais antes mesmo de a bola rolar oficialmente.

A menos de um mês das convenções partidárias, que definirão os candidatos, e poucas semanas antes do início da campanha eleitoral, os principais grupos políticos entram na reta decisiva de preparação. Em Itumbiara, o ex-governador Ronaldo Caiado participa da quinta edição do Pra Frente Goiás ao lado do governador e pré-candidato Daniel Vilela. Em Goiânia, o senador Flávio Bolsonaro estará no lançamento da pré-candidatura de Wilder Morais ao Palácio das Esmeraldas, no Tatersal de Elite do Parque de Exposições Pedro Ludovico Teixeira. Assim como no futebol, chegar embalado na próxima fase pode fazer toda a diferença.

Os dois encontros também funcionam como uma espécie de aquecimento para projetos nacionais. Caiado trabalha para consolidar sua pré-candidatura à Presidência da República. Flávio Bolsonaro percorre o país fortalecendo sua própria imagem dentro do campo conservador.

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Escalação confirmada

Caiado e Daniel Vilela participam de encontro político (Foto: Divulgação)
Caiado e Daniel Vilela participam de encontro político (Foto: Divulgação)

A presença de Caiado ao lado de Daniel neste sábado repete um roteiro já rodado em Jaraguá, Rio Verde, Luziânia e Uruaçu. Em cada etapa, o ex-governador entrou em campo diante de prefeitos, vereadores e lideranças regionais com discursos centrados nas entregas da gestão e na associação direta entre seu nome e o do pré-candidato.

Em Uruaçu, no dia 13 de junho, Caiado foi direto: “Nosso governo construiu a paz, olhando para todos os goianos como irmãos. Fizemos a melhor segurança pública do Brasil, a melhor educação e levamos saúde para todos os cantos do Estado. Vamos eleger Daniel Vilela no primeiro turno.” Daniel, no mesmo palanque, reforçou: “Podem ter a convicção de que vamos continuar avançando junto aos municípios.”

Caiado deixou o governo com índices de aprovação entre os mais altos do país entre ex-governadores de grandes estados — um ativo que o grupo busca converter em gol para Daniel. O desafio está em um dado que as pesquisas revelam: uma parcela considerável do eleitorado goiano ainda não sabe que Daniel é o candidato apoiado por Caiado. É esse hiato que a sequência de eventos regionais busca fechar, levando a associação entre os dois nomes para o interior.

“Caiado não está apenas emprestando o nome a Daniel. Ele está construindo uma narrativa de continuidade que transforma a aprovação da gestão em argumento de voto futuro”, avalia o cientista político Rodrigo Andrade. “O eleitor não vota no padrinho — vota na ideia de que o projeto que ele aprova vai continuar. Isso é mais robusto do que a transferência clássica, que depende de o eleitor obedecer a uma indicação.”

Estreia em casa

Ana Paula Rezende e Wilder Morais (Foto: Ludymila Siqueira)
Ana Paula Rezende e Wilder Morais (Foto: Ludymila Siqueira)

Enquanto Ronaldo Caiado percorre o interior do estado para apresentar Daniel Vilela como seu sucessor, Wilder Morais aposta em um grande ato político na capital para demonstrar força às vésperas das convenções partidárias.

O evento deste sábado marca uma das principais mobilizações da pré-campanha do PL em Goiás. Além de Wilder, estarão presentes a pré-candidata a vice-governadora Ana Paula Rezende e os pré-candidatos ao Senado Gustavo Gayer, Oséias Varão e Humberto Teófilo. A participação de Flávio Bolsonaro reforça a estratégia do partido de emprestar visibilidade nacional ao lançamento da candidatura ao Governo de Goiás.

Mais do que um ato de apoio, o encontro busca demonstrar capacidade de mobilização política antes do início oficial da campanha. O tamanho do público, a presença de lideranças e a repercussão do evento serão observados como sinais da competitividade da chapa na corrida pelo Palácio das Esmeraldas.

Para o cientista político Rodrigo Andrade, assim como acontece em outras disputas eleitorais, o papel do cabo eleitoral vai além da simples declaração pública de apoio. “A presença de uma liderança conhecida ajuda a ampliar a visibilidade do candidato e fortalece sua imagem perante o eleitor. Mas isso não significa, necessariamente, transferência automática de votos. O eleitor avalia diversos fatores antes de tomar sua decisão”, avalia Andrade.

Se no futebol um grande jogador pode levantar a confiança da equipe antes de uma partida decisiva, na política os cabos eleitorais procuram cumprir papel semelhante: dar confiança ao grupo, atrair atenção para a candidatura e criar um ambiente favorável para o início da campanha. A confirmação dessa força, porém, só aparece quando a bola começa a rolar — ou, na política, quando a campanha efetivamente começa.

Meio de campo

Enquanto Caiado e Flávio Bolsonaro entram em campo neste sábado para impulsionar seus aliados, outros grupos constroem suas estratégias para a disputa pelo Governo de Goiás.

No PT, o deputado estadual Luís César Bueno foi escolhido como pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas e aposta no legado da legenda e na imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como principais ativos políticos. “O PT tem um grande legado em Goiânia, Anápolis, no Entorno do Distrito Federal, e Lula fez muito em Goiás. Temos uma malha de serviços prestados que ninguém tem”, afirmou Bueno.

O desafio histórico da legenda em Goiás, porém, é transformar esse capital político em votos para uma disputa estadual. Em um estado onde a esquerda tem diversas dificuldades, a identificação com Lula não necessariamente produz o mesmo resultado eleitoral observado em outras regiões.

“Transferir o capital político de Lula para um candidato ao governo estadual, em um estado onde o campo conservador tem predominado há décadas, exige uma estratégia diferente”, avalia o cientista político Rodrigo Andrade.

Já o ex-governador Marconi Perillo percorre o estado pelo movimento Avança Goiás apostando na própria trajetória política e na memória das gestões anteriores. Sem uma liderança nacional atuando diretamente como cabo eleitoral, o tucano tenta transformar experiência administrativa em vantagem eleitoral. “Marconi joga uma partida diferente. O principal ativo dele é a própria história, a lembrança dos governos e a tentativa de reconectar essa trajetória com o eleitorado atual”, afirma Andrade.

O passe decisivo

Na ciência política, a transferência direta de votos — quando o eleitor simplesmente segue a indicação de uma liderança — é um fenômeno cada vez mais complexo. O apoio de um grande nome continua sendo um ativo importante, mas não funciona como uma ordem automática.

O que permanece com mais força é a transferência de credibilidade: o cabo eleitoral ajuda a reduzir dúvidas e associa o candidato a uma imagem de confiança, experiência ou alinhamento político. É menos uma ordem e mais um passe — que o candidato ainda precisa transformar em gol.

“Existe influência, mas raramente existe transferência automática de votos. O cabo eleitoral cria um ambiente favorável, ajuda quem está indeciso, mas não substitui o trabalho do próprio candidato”, resume Rodrigo Andrade.

FONTE/CRÉDITOS: Glaucio teixeira